Na correria para sair e conseguir pegar o vôo para Paris naquela manhã de quarta lembrei de uma viagem há seis anos atrás, em que consegui esquecer na casa da Dé, lá, naquela mesma Paris, um livro da biblioteca perto da casa da minha prima, em Barcelona. O livro teve que voltar por correio enquanto eu seguia toda pimpona para Amsterdam e Londres. Mesmo sem dormir, preocupada e faminta, consegui lembrar disso no momento em que ia pegar El tiempo en ruinas para colocar na bolsa. Não! gritou uma voz imediatamente na minha cabeça. Esse livro não deveria nem estar na sua casa, quando mais em outro país. Olhei em volta rapidamente buscando uma solução. Claro, eu não consideraria jamais a possibilidade de viajar sem levar um livro!
Entre os tantos ainda não lidos na minha estante, fixei o olhar no Angela's Ashes, que o irlandês de cabelos vermelhos havia deixado aqui. Esse livro é bom? Lhe perguntei com o livro na mão. Meio dormindo ainda, ele deu algumas voltas, que talvez fosse complicado pra mim quando o texto imitava o sotaque irlandês, que isso que aquilo... Mas é bom? Sim. E o livro ganhou seu ticket para Paris.
Havia passado a noite sem dormir, fazendo mala, e meio apavorada de perder a hora e o avião. Estava faminta, sem café da manhã, nervosa porque me havia descontrolado por algo estupidamente simples, e achei que ia sentar naquela poltrona e só acordar quando avistasse a Torre Eiffel. Vou tentar ler ao menos a primeira página, até dormir. Duas horas e meia depois eu havia lido os onze primeiros capítulos e reclamava em silêncio que já havíamos chegado. Simplesmente não pude parar de ler.
Trata-se de um romance auto-biográfico de Frank McCourt, sobre sua infância paupérrima em Limerick, na Irlanda. O texto super fluído e bem escrito, e no meio de tanta desgraça o narrador em nenhum momento cede à tentação de se vitimizar. Delicioso, bastante crítico (em especial com a igreja católica), não foi nada difícil cair num dos meus períodos de imersão e só voltar à vida depois de terminá-lo, neste último sábado. Só saí da cama depois de ler a última página, já marcando o tom de preguiça de todo o final de semana. Quero ler seus outros dois livros... e ver o filme, claro.
Agora é terminar de arrumar a casa, ver o resto da maratona de episódios atrasados de Grey's Anatomy, e me preparar para voltar à vida real depois do feriado....
Descobri que adoro bússolas. Descobri isso porque dei de presente de aniversário de 60 anos para o meu pai uma bússola. Tenho claro que gosto tanto dessa idéia por duas características minhas que reconheço ter herdado dos meus pais. É, dos dois. E por isso mesmo se torna impossível fugir disso. E, pra ser sincera, são duas coisas que curto em mim. A primeira é o amor pelas pequenas coisas, pelos objetos, pelos souvenirs, levei muito tempo guardando tralha à toa, até organizar esse sentimento, o desejo de memória, que não significa guardar todo tipo de coisa, mas sim guardar a memória das coisas. Por isso gosto tanto de lembranças de viagem, lápiz, bloquinhos, bússolas, relógios e essas coisinhas, meus pequenos objetos de desejo. Sou uma colecionadora incurável de nada específico. Coleciono recordações, frases e todo tipo de coisa. Não à toa, gosto de catalogar.... A segunda coisa é essa fome de mundo, de viagem, de conhecer gente, de estar em todos os lados. Essa característica, que eu gosto de chamar vocação dos abismos, é o que me faz querer estar sempre em movimento. Sou inquieta, e não posso evitá-lo. Acho que essas são as duas características mais fortes em mim, e acho engraçado como posso ter herdado isso dos dois ao mesmo tempo. E já descobri que quando estou em crise é justamente quando não consigo fazer as duas coisas coexistirem, quando uma se torna um empecilho para a outra. Tenho uma tendência extremamente metódica para fazer as coisas, e quando me entrego a isso, e deixo o impulso de lado, é quando as coisas não vão bem pra mim.... Acordei pensando no meu tema favorito ultimamente, o Museu na Maleta. Pensando em inventariar o mundo, nomear todas as coisas, colecionar sentires e memoriar memoriar memoriar.....
So of course I miss you and miss you bad But I also felt this way when I was still with you Yes of course I miss you and miss you bad But I also felt this way when I was still with you
Adoro manhãs de sábado! E a de hoje foi a mais preguiçosa de todas.
Parece que dormi por um dia inteiro. Sono pesadíssimo, e nem pensar em despertador. Ando com tantas coisas na cabeça, que o cansaço e o sono que vinha acumulando pareciam como se eu tivesse corrido uma maratona. Imagino que são as preocupações. Todas as coisas sempre pendentes, e tudo mais que tenho que colocar em ação.
Cheguei tarde, cheguei cansada, mas cheguei bem. Dormi bem.
Acordei com a casa só para mim, como toda a última semana. Adoro estar sozinha em casa, e sonho com o dia em que poderei morar sozinha. Faz frio lá fora, e estava com tudo fechado, quentinha debaixo do edredon. E ali fiquei por pelo menos duas horas, devorando as últimas páginas de Angela's Ashes.
Só me mexi mesmo quando a fome bateu. E de café da manhã The XX:
Hoje será um dia preguiçoso e caseiro. Não tenho vontade de ir à lugar nenhum...
Talvez seja por isso que eu goste tanto deste blog. Ainda que sem continuidade alguma, não posso deixar de sempre voltar aqui. Twitter é muito breve e sem graça. Nada na minha vida aconte em apenas uma linha. Preciso de ao menos um parágrafo. E cada parágrafo, cada texto, não passa de um instantâneo da minha vida. É o que passa quando se vive por momentos. Não consigo ver o futuro daqui. Talvez isso seja ruim quando ele, o futuro, chegar. Mas nunca aprendi a viver de outra maneira. Sou o aqui e o agora, ainda que minha memória me pese, e o peito pese, e sei lá, alguma outra coisa dramática pese. Não penso em amanhãs, mas os ontens estão sempre presentes na consciência de que sou o resultado de todos eles. Eu vivo e penso em fotografias, e, irônicamente, vivo há mais de um ano sem uma câmera fotográfica. E como não podia deixar de ser, sofro por isso. Eu vivo para o momento e para as pequenas coisas. Lembrarei de um sorriso ou de um gesto, de uma frase solta, so seu cabelo, do tom de voz, de uma peça de roupa, mas nunca da conversa toda, ou que dia era. É isso. I can't write stories, only moments, because I think in photographs.
you know what I love about Spain? the light here. The brightness and colours out there. It feels just like home to me. Today is one of those days that things go slow, and I can't get myself to do anything at all. I'm just stuck here, looking out the windown, looking at the colours of the day out there.